DAVID, Jacques-LouisNapoleon in his Study
1812
Tela/óleo, 204 x 125 cm
National Gallery of Art, Washington
Este retrato é propaganda por todo o lado: que bom governante, é tão tarde, como se vê no relógio e pelas velas consumidas e ainda está acordado, pudera, legislou feita maluca no código que está enrolado sobre a cadeira; que bom soldado que é, que agora se prepara na sua farda de Coronel, engalanada, com a sua espada, prestes a ir passar revista aos seus soldados, que temos de andar sempre de olhos nos homens; que bom imperador este, que no meio dos símbolos do seu brasão, as abelhas e o seu N no cadeirão, zela dia e noite em benefício dos seus amados súbditos.
Terá sido o amigo Napoleão a escolher a pose? Acho que não, porque com tanta coisa, o homem não tinha tempo para essas coisas fúteis, como posar para o retrato, ora essa. O artista, o Sr. David é que deve ter pensado nisso. E este foi impiedoso, arrasou com a outra. Plantou-a toda torcida, de esguelha, como quem quer parecer menos gorda. As meninas das passadeiras vermelhas dos nossos tempos fazem o mesmo para a fotografia, uma perninha atrás da outra, aprenderam com as amigas mais velhas. O David deixou-lhe a barriga toda, a velhaca, mas vá lá, deixou-lhe um pacotinho nas calças para salvar um pouco a masculinidade da casa, nada sem grandes exuberâncias, mas vá lá, assim já não foi mau.
Assim faço eu também, é uma no cravo, outra na ferradura. A um passinho à frente, segue-se-lhe outro atrás. Temos de ser cuidadosos, nada de grandes revoluções, há que manter o equilíbrio natural das coisas. Ou não?
O David jogou o jogo do Napoleão: ok, faço-te boa no papel público que ocupas, mas filhinha, não há nada a fazer, és bicha.
Acham que o Napoleão se maçou com isso? Népia, gostou e disse: "Apanhaste-me, querido David..." e rematou: "...de noite trabalho para a felicidade dos meus súbditos, e de dia trabalho para a sua glória."
Estas manas, pá, eram cá umas ressabiadas, ufa...



